Ela chega na fila do caixa pra pagar e quem tem exatamente a mesma ideia na mesma hora?! Cartão de consumo na mão, ele encosta assim meio de lado no balcão, com uma certa displicência charmosa que lhe é caracteristica. E ela que já estava há pelo menos umas três horas sem saber como dançar, o que beber e o que falar retribui o olhar constrangido com um sorriso sem graça e se distrai com algo que a menina da frente fala, fingindo não imaginar que o jeito que ele olha e conversa com a mocinha que passa atrás indica que eles tiveram/tem/terão algum envolvimento. E finge também não torcer secretamente para dar algum problema ao passar o cartão e a fila seguir morosamente para que ela fique ali a não observar o desfecho daquela conversa e tenha uma oportunidade ainda que rápida de mais uma vez não saber o que fazer nem o que falar.
Mas a fila anda rápido e é preciso sair dali. Pelo menos a conversinha acabou, então, tudo bem, comanda paga na mão, vai se despedir. Alguns breves eternos minutos, as palavras vagam pelo ar e, em câmera lenta, ela apenas sente o leve afagar das mãos que se seguram e um beijo na barba macia - ai, como faz calor nessa noite fria! Desfalece por dentro, tudo se desmancha, se derrete na vontade de mergulhar na sua barba, se perder no seu mundo, se afogar em seu colo. É quente e denso o ar no pouco espaço que os separa. As mãos se apertam, as palavras despedem e o olhar fundo, forte e intenso intriga. Ela quer ficar, propor conversas e silêncios, fugir dali pra qualquer lugar onde dê pra liberar essa energia envolta em luxúria. Mas, falta... coragem? - como saber se ele queria? Sai rapidamente, sem olhar para trás. Dança fora do ritmo as últimas músicas à espera da carona, enquanto assiste ao filme dos encontros anteriores, no apartamento dele. Ela sabe que ele não sai por aí contando detalhes íntimos da sua vida e beijando os pés de todas as moças com quem transa. E ele sabe que ela não sai por aí provocando encontros casuais e se entregando loucamente a todos os rapazes que conhece. Não é só o sexo, eles sabem. Mas só sexo também é, ela sabe. As imagens em 3D na cabeça se cruzam com os momentos daquela noite em uma busca incessante por denominadores comuns: o olhar intenso, o afagar da barba macia, o toque das mãos e também aquele jeito um tanto quanto blasé de quem conscientemente propõe a si mesmo não se importar. E se ele perguntasse, saberia que mesmo querendo se importar ela não se importaria em viver mais alguns encontros despretensiosos sem precisar agir com pretenso desinteresse.
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