do amor, da saudade e do aniversário

Houve certa vez um cartão de dia dos namorados que dizia assim: ‘(...) a gente ia acabar mesmo se conhecendo nessa vida. (...) Coisa do destino: inevitável e da existência: imprevisível. Saber que você existe e poder compartilhar de suas idéias, sua companhia (...) é bom demais! Que seja sempre inevitável continuar te conhecendo e eternamente imprevisível saber como será - mesmo que um dia, no futuro, o momento presente fique tão somente aconchegado nas lembranças de uma saudade gostosa.’ Uma tentativa de expressar o amor de maneira Espinosista e realmente sincera naquele momento. Um amor que não implica necessariamente a idéia de posse.

Era tanto em comum, tanta intimidade, um partilhar particular verdadeiramente rico e intenso que parecia de fato ser capaz ao sentimento mútuo extrapolar a posse, preservando o restante quando da separação. Mas... o amor quer e o homem é um sem fim de desejos conflitantes.

Do amor restou a saudade preenchida pelo vazio do presente de uma relação reduzida forçosamente ao nada pela ausência e pela distância. O tempo ajuda, o tempo cura, o tempo esvazia... A ponto de até mesmo as boas lembranças deixarem-se apagar, tristemente, aos poucos.

Pensando, encontram-se algumas, guardadas com carinho em um cantinho... Restam coisas boas aparentemente tolas, representadas na falta: das conversas sobre tudo, sobre o mundo; das discussões filosóficas; da discussão sobre o bom filme - latino ou europeu - alugado; do sono aconchegante quando o filme era ruim; da cara de sono de manhã cedo; da chuva ao subir a serra no domingo à noite; da ‘espera’ divertida na areia nas tardes ensolaradas; do calor gostoso da simples presença ao lado; da ausência presente do encontro iminente...

Pensando, também encontram-se memórias não tão doces assim - alguns fatos que podiam não ter acontecido, frases que não precisavam ter sido ditas: negação e desmerecimento desnecessários - que ajudam a esquecer o vazio total e absoluto atual.

Eu não queria que fosse dessa forma. Mas, a vida se faz assim nesse momento e traz, agora, lembranças tão somente factuais. Lembro, por exemplo, que breve será dia de aniversário. Queria poder dizer de novo esse ano: 'O aniversário é seu, mas o presente é meu, simplesmente por você existir'. Mas mesmo em Espinosa, esse sentimento implica alguma troca. O vazio e talvez a saudade não me permitem amar em Espinosa. Ainda... Que exista um quando para isso acontecer... E, por conseguinte, muitos aniversários para celebrar...

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