da paixão


"O sujeito fica de algum modo vazio, disponível, aberto sem saber para o rapto que irá surpreendê-lo."  Roland Barthes em 'fragmentos de um discurso amoroso'

do pedido

E você disse que leu as coisas que escrevi. Para outros. Sobre os outros. E eu entendo que, então, você queira que eu escreva pra você também. Sobre você. E pra me camuflar eu te digo que só está escrito ali aquilo que já passou, que não é mais. E assim, te deixo a desejar que não mais haja algo ali pra você ou sobre você porque subliminarmente quero dizer que se há é porque acabou e você não quer que acabe (ou eu não quero que acabe). Ou pelo menos, assim eu penso que gostaria naquele momento em que você timidamente expressou sua vontade. No fundo, confesso, fiquei foi feliz de saber desse seu desejo que podia ser um segredo seu que virou nosso tão generosamente compartilhado que foi. O que eu devia ter dito, na verdade, é que um texto, uma história, uma estória não surge assim de caso pensado... Surge como um apelido que pega à toa (não como todos aqueles outros que tentei inventar). Nasce do coração que comanda o cerébro e faz escrever. Brota do acaso, no meio do trabalho, resultado da inspiração súbita de uma lembrança daquele dia, daquele beijo, da saudade que eu não sabia que sentiria, da vontade que eu não imaginava sentir um dia. Metáfora da nossa história. Há uma história e uma estória e agora há um pequeno texto que também é, fazendo jus à metáfora, um pequeno excerto de nossas vidas. Ele está aqui hoje, dizendo pra você coisas que talvez eu não ousasse dizer. Ele está entregue a você como posso estar sem sentir vergonha do que possa sentir porque não importa o que pode vir a ser. Transparente, revela a alma. E como um espelho reflete um querer. Simples demais: quero tanto!

da semente


Queria me inundar de desapego e abraçar com carinho, te deitar no meu colo no sofá laranja e conversar, conversar, conversar... Então, abraçar de novo bem apertado e ir embora como num filme, a perder-me no horizonte à perder de vista.

Não haveria silêncios constrangedores nem olhares incertos. Somente a serenidade do verdadeiro a transpirar de maneira incontida e absurdamente sincera por nossos poros.

Haveria silêncios confortantes na certeza tranqüilizadora de que esse momento deveria ser vivido exatamente dessa forma. Não seria como um déjà vu. Seria mais como a plenitude de estar ali com toda a energia e atenção direcionadas para aqueles instantes.

Seriam algumas horas transcorridas como breves minutos onde você não me contaria o que disseram que você andou fazendo. Falaríamos sobre o homem, o mundo e sobre quem somos - talvez sobre a metafísica de nós dois.

Haveria o toque sem emanar desejo. Haveria o calor do querer bem.

Haveria naturalmente o momento do adeus. Eu te veria ir embora como num filme, a perder-se no horizonte à perder de vista.

E do encontro restaria desesperançosamente - com tranqüilidade ímpar - a semente do novo de novo.

do ciúme


"Como ciumento sofro quatro vezes: porque sou ciumento, porque me reprovo por sê-lo, porque temo que meu ciúme fira o outro, porque me deixo sujeitar por uma banalidade: sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum."
                                                Roland Barthes (em 'fragmentos de um discurso amoroso')

da separação

"Ninguém se separa, as pessoas se abandonam."
                                                                       O Passado
  

                                                                

sobre a moral, o estar só e a solidão

Sobre a moral, o estar só e a solidão - uma breve reflexão

“A moralidade diz respeito ao indivíduo na sua singularidade. O critério de certo e errado, a resposta à pergunta: ‘O que devo fazer?’, não depende, em última análise, nem dos hábitos e costumes que partilho com aqueles ao meu redor nem de uma ordem de origem divina ou humana, mas do que decido com respeito a mim mesma. Em outras palavras, não posso fazer certas coisas porque, depois de fazê-las, já não serei capaz de viver comigo mesma. Esse viver-comigo-mesma é mais do que a consciência de mim mesma (counciousness), mais do que a ciência de mim mesma (self-awareness) que me acompanha em qualquer coisa que faço e em qualquer estado em que me encontre. Estar comigo mesma e julgar por mim mesma é articulado e tornado real nos processos de pensamento, e todo processo de pensamento é uma atividade em que falo comigo mesma a respeito de tudo o que me diz respeito. Passarei a chamar o modo de existência presente nesse diálogo silencioso de mim comigo mesma de ‘estar só’ (solitude). Assim, o estar só é mais do que os outros modos de estar sozinho, é diferente desses outros modos, particularmente e principalmente da solidão (loneliness) e do isolamento”. ARENDT, Hannah. Responsabilidade e julgamento. P. 162-163

Cada indivíduo traz verdades únicas e exclusivas sobre a existência humana em função de sua historicidade, biografia e do contexto comunitário em que está inserido. Além disso, a influência do divino na formação do homem é inerente à sua existência, esteja sua concepção associada ou não a uma religião. Da mesma forma, as influências proporcionadas pelas trocas decorrentes da relação entre os indivíduos e os hábitos e costumes partilhados contribuem para compor a essência sobre a qual a moral própria do indivíduo é estabelecida. Assim sendo, não se pode negar que o ambiente externo e a maneira como o indivíduo se posiciona no mundo ao seu redor interferem em seu julgamento acerca das atitudes que toma. Entretanto, tais influências não são determinantes ou decisivas, elas apenas compõem um conjunto de idéias sobre as quais o homem em um diálogo consigo mesmo estabelece sua moral e seu julgamento.

O distanciamento se faz necessário para que esse processo possa ocorrer. Distanciamento e vontade. Primeiro é preciso querer envolver-se no processo de ‘estar só’ para, então, obter a consciência de que as atitudes tomadas frente às mais diversas questões apresentadas têm por base a moral única do indivíduo e não fatores externos, como muitos podem querer ao justificar ou criticar suas ações. O ‘estar só’ e o diálogo consigo permitem ao homem avaliar-se e perceber sobre quais preceitos próprios está pautada sua moral e porquê determinados acontecimentos são, por ele, considerados certos ou errados. Entretanto, se o indivíduo não quiser perceber esse processo, ele conduz sua vida acreditando basear-se em ordens divinas ou humanas e em hábitos e costumes. Ao querer distanciar-se e ao fazê-lo, é possível ao homem encontrar suas verdadeiras motivações e perceber que a cobrança com relação ao certo e ao errado vem de si, o que pode tornar mais claros os caminhos necessários para “escapar” do sofrimento proporcionado por sentir-se fazendo coisas erradas. Ou seja, ao encontrar coerência na sua própria moral, o homem pode permitir-se agir de forma a perdoar-se amenizando o sofrimento que lhe é apresentado. Por exemplo, para aqueles cuja concepção de moral interna está fortemente pautada em aspectos de ordem religiosa, o apego aos preceitos da sua religião e a adoção de suas estratégias de cura significará alívio e tornará sua vida preenchida de sentido. E, ao mesmo tempo, o diálogo consigo mesmo pode proporcionar a revelação de uma alternativa de cura para o sofrimento humano não pautada em argumentos religiosos, e, sim, no auto-conhecimento e na maneira que o indivíduo pode encontrar de lidar com sua própria moral.

O ‘estar só’ permite encontrar em si mesmo os valores que realmente pautam a realidade de cada um, estabelecendo e reconhecendo sua moral única e exclusiva. “O essencial está em mim, mas não é eu. Em mim (em meu corpo): esse vazio. É preciso começar por esse vazio.1” Para ‘estar só’ não é preciso vivenciar a solidão, ou isolar-se. É preciso deixar-se preencher por esse vazio para, então, encontrar-se por meio do diálogo consigo mesmo. O vazio representa o silêncio da alma, a verdade do silêncio como a primeira verdade, pois, antes de tudo vem o nada. O ‘estar só’ proporciona a aquisição do espaço necessário ao indivíduo para que o diálogo consigo aconteça se ele assim o desejar: é preciso preencher o vazio estabelecendo processos de pensamento. Assim, será possível julgar por si mesmo para ‘viver-consigo-mesmo’.

‘Estar só’ não é tarefa fácil. Permitir-se conhecer o extremo do seu silêncio pode ser demasiadamente revelador e é mais confortável evitar que isso aconteça. Por isso, muitas vezes, confunde-se ‘estar só’ com solidão e/ou isolamento onde facilmente recorre-se às armadilhas das mentiras. O ‘estar só’ proporciona um encontro com as verdades primordiais do indivíduo, com sua ontologia. É a verdade do silêncio acima citada. “A verdade consiste no ser: ela é o próprio ser, universal e absoluto (...)”2.

Ou seja, a moral de cada indivíduo é composta por elementos inerentes ao ser e também por fatores externos, sejam eles religiosos ou humanos, mas nem sempre os preceitos sobre o qual ela realmente está baseada estão claros e definidos para o homem. A consciência do que forma sua moral e a percepção do julgamento realizado por si só acontecem a partir do momento em que se torna possível estabelecer processos de pensamento proporcionados pelo ‘estar só’. Uma vez que o homem assim deseja, ele pode encontrar seu vazio interior e, por meio do diálogo consigo mesmo, buscar sua verdade, única e exclusiva, base sobre a qual sua vida será conduzida e seus atos serão julgados: sua moral.

1 COMTE-SPONVILLE, André. Tratado do desespero e da beatitude. São Paulo: Martins Fontes, 1997. P.14

2 COMTE-SPONVILLE, André. Tratado do desespero e da beatitude. São Paulo: Martins Fontes, 1997. P.24

do fim

"O amor, se é amor, não se acaba de forma civilizada.
Nem no Crato…nem na Suécia.
Se se ama de verdade, nem o mais frio dos esquimós consegue escrever o “the end” sem uma quebradeira monstruosa.
Fim de amor sem baixarias é o atestado, com reconhecimento de firma e carimbo do cartório, de que o amor ali não mais estava."
                                                                        Xico Sá

do amor

"Love is a fog that burns with the first daylight of reality."
                                                                                          Bukowski

("Love… It is kind of like… you know when you see a fog in the morning when you wake up before the sun comes out? It’s just there a little while and then it burns away. It burns away… quickly.")

daqui

do magnetismo

O sonho lhe desperta. E lhe avisa. Ela acorda na casa do Thomaz, tinha ido dormir lá com uma amiga após a festa. Levanta, cara amassada de sono, dá de cara com a mãe que lhe abraça carinhosamente, com saudade. "Você devia ir falar com o Thom. Ele está no quarto com a namorada, mas vai lá, você tá tão bonita nessa sua morenice meiga!" Piscadela marota como quem diz: gosto mais de você do que dela e sei que ele vai ficar balançado. Ah, quando foi que ela ouvira a mesma frase da mesma mãe? Ah, sim, logo depois que ela e Thomaz terminaram, em um dia em que se encontraram por acaso, na praia, só a namorada dele que não era essa de agora. Tão bonita! O cabelo revirado, o rosto inchado e aquele pijama estranho emprestado de quem mesmo?! Lembra de sua amiga dizendo na volta da festa que a achava muito mais bonita do que a ex-namorada do seu amigo que também é amigo do Theo. E ela tinha certeza de que Theo achava a ex-namorada do seu amigo muito mais interessante do que ela. Ah, Theo! Mas ela também achava que todas as mulheres estavam tão interessadas em Theo assim como ela. Theo e Thomaz. Muito mais em comum têm esses dois do que as primeiras letras do nome. Ela já desconfiava de que seu interesse por Theo tinha muito a ver com Thomaz e o sonho vem lhe confirmar. Encontra Theo em um dia em que ele não lhe dá muita bola (sim, fora educado, atencioso e gentil, mas ela queria risos e beijos e conversas e sexo) e, então, sonha que está na casa de Thomaz e precisa que a mãe dele lhe diga que é bonita. Thomaz e Theo. A mesma malemolência, mesmo andar cadenciado, mesmo jeito confiante e sedutor de quem circula pelo salão sorrindo com os olhos por detrás dos óculos charmosos, tira pra dançar com suavidade, leva a rodar pela pista. Ela os olha a dançar e imagina que todas sentem que os pés mexem, mas o mundo para quando eles deixam a barba encostar levemente no rosto das meninas... só ao olhar ela quase pode tocar o calor e o sentimento de aconchego que toma conta do seu peito. Theo e Thomaz. Mesmo jeito de tratá-la como a única mulher do planeta e com a mais absoluta indiferença momentos depois. Quando isso começou? Ela conhece diversos rapazes, alguns parecem até verdadeiramente se interessar por ela, mas todos lhe são desinteressantes se não têm um quê de Theo ou Thomaz. Como o Gael Garcia Bernal que também lhe transmite toda essa aura... inacessível. Seria o inacessível o magnetismo?

carta a um ex-amor

Minha flor,

Resolvi escrever porque de certa forma sinto-me um pouco em débito com você por nunca ter respondido nada do que você me disse. Prometo que tentarei ser o mais sincero possível nesta carta mesmo que doa um pouco em você - e em mim também porque não é fácil admitir certas coisas e escolhas até para nós mesmos.

Não quero que você pense que tudo o que te disse no dia em que terminamos e nas primeiras semanas subseqüentes era mentira. Não era. Tudo o que eu falei era verdade e era como eu realmente me sentia naquele momento. E, de fato, acho que foi precipitado. Mas foi como aconteceu e depois de algum tempo eu me adaptei à sua ausência e hoje, prefiro conviver com ela.

Você é uma pessoa incrível e tem, sim, tudo o que eu gostaria em uma mulher e isso é tremendamente assustador pra mim. Você tem o direito de ter raiva e me chamar de covarde por agir assim, mas eu prefiro viver outras coisas agora que são mais fáceis e não trazem o peso que a nossa relação trazia. Desculpe. Acho que não dei conta de estar com você porque isso implicava em muitas coisas, inclusive em vontades que eu não queria nem podia ter.

Mesmo durante esse tempo, vivendo uma ausência mais assimilada (ainda que utilizando alguns artifícios de substituição para tal) eu pensei em te procurar algumas vezes para conversar. Não o fiz um pouco por achar que podia te magoar mais em função da decisão que eu tinha tomado e do que tenho vivido e outro tanto porque não sabia o que poderia sentir e não queria me confundir mais.

Reconheço minha culpa no nosso afastamento, mas entenda que eu não enxergava outra possibilidade por não saber lidar com essa situação difícil para nós dois. E ainda prefiro que a distância e a ausência permaneçam como estão. Sei que nossos mundos possuem muitos pontos em comum e vamos nos encontrar ainda por acaso algumas vezes na vida. Eu espero que algum dia um desses encontros aconteça com um grande e surpreso sorriso e que, mesmo separados, encontremos em nossos olhares lembranças do que nos uniu um dia.

Me perdoe pelas noites de sono perdidas, por todas as lágrimas derramadas e pela dor que seu coração sentiu. Saiba que também doeu muito em mim e chorei pela
lembrança de um beijo.

Para terminar quero dizer que você é uma das pessoas mais especiais que conheci, que me ensinou muito e marcou profundamente minha vida. Eu não seria quem sou hoje se não tivesse te conhecido e pode ter certeza de que nunca te esquecerei completamente ainda que ausente.

Milhares de beijos.

Dois ou três almoços, uns silêncios.

de Caio Fernando Abreu

Dois ou três almoços, uns silêncios.
Fragmentos disso que chamamos de "minha vida"


Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.

De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.

Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.

do encontro

Foram o jeito de andar e o sorriso que ativaram a lembrança de que a pessoa que se aproximava era conhecida. Não que fosse preciso muito esforço para uma relação ainda tão viva apesar de já fazer parte do passado há mais de dois anos. Acontece que de fato, a diferença física entre o ser presente e aquele outro antes conhecido era surpreendente. Mas ainda estava ali a malemolência do andar cadenciado, sem pressa, quase como que um requebrado discreto e cheio de charme. E o sorriso era o dos últimos tempos juntos ou das últimas vezes em que se encontraram? – Ela não sabia mais dizer, os sentimentos lhe confundiram a memória cronológica. Um sorriso mais com o canto da boca com um jeito de querer aconchegar, mas que é bloqueado por uma força estranhamente maior e fica ali naquele meio-sorriso que traduz a ambivalência do querer – não-querer encontrar e partilhar. Um misto de alegria e angústia que provavelmente era o que ambos de fato sentiam com a surpresa desse encontro casual. Ela, impassível, não demonstrou com meios-sorrisos sua ambigüidade e o cumprimentou como a um colega qualquer. Ele perguntava e ela respondia mecanicamente com espontaneidade fingida enquanto se concentrava em observar o cabelo mais comprido que lhe lembrava Bon Jovi, o rosto imberbe e a ausência dos tão charmosos óculos. E lembrava que a barba sempre fora um de seus traços mais fortes que ele fazia questão absoluta de nunca tirar mesmo com os ocasionais comentários de que a barba escondia seu rosto tão bonito. E olhando-o assim, com o rosto liso, parecia-lhe que algo em sua identidade se perdera. A combinação da barba com os óculos era reflexo de sua personalidade, reforçava quem ele era e queria ser e, por isso, ela gostava tanto daquele visual. Causava-lhe muita estranheza a transformação por que ele passara e as perguntas vinham e apesar da voz igual era como se outra pessoa que ela nunca tinha visto conversasse com ela. A voz ao longe se misturara à música e agora ela observava o tórax forte de quem freqüenta academia todos os dias e tinha vontade de rir imaginando uma fantasia de super-homem daquelas com enchimento por baixo da camiseta branca que ele usava. Ria-se por dentro e tinha vontade de cutucá-lo para ver se era de fato real todo aquele volume. Foram alguns poucos minutos de trivialidades e perguntas previsíveis que, interrompidos por força da ansiedade, deixaram-na a imaginar que ele a olhava e apesar de falar pensava em como ela estava bonita e que cabelo lindo era aquele! E deixaram-na a desejar uma segunda oportunidade para conversar mais banalidades e decifrar (por que não?) as sutilezas daquele sorriso.

Felizes para sempre

- Sabia que eu gosto de você?
Ela ouviu e demorou alguns segundos pra processar tal informação, dita assim, de surpresa, tão habituada estava a não ter expectativa nenhuma com este relacionamento. Os dois abraçados, de conchinha pós-sexo já era algo muito novo e ele ainda vem e solta essa! A primeira reação foi um sorriso calado e o silêncio que deve ter durado uns bons quase constrangedores segundos que o fizeram completar com o mesmo tom de voz doce e suave: "Assim de um jeito diferente..." Ela sabia que ele gostava, lógico que sabia! Mas não sabia que a pessoa era capaz de dizer isso em voz alta e para ela! Ou talvez, na verdade, estivesse era dizendo pra si mesmo, uma constatação completamente nova, quase uma epifania! Que sensação mais estranha de como-foi-que-eu-vim-parar-aqui-mesmo-e-agora-no-fundo-ouvir-você-dizer-isso-me-faz-querer-pular-e-pular-e-te-abraçar-loucamente! Ainda abraçada de costas, e ainda deitada e ainda sorrindo, virou-se para ele e disse, timidamente: "Sei. E eu também gosto de você","te adoro e te odeio ao mesmo tempo". E riu. Era um momento único entre eles, essa troca sincera e espontânea, sem joguinhos. Já se conheciam há algum tempo e, apesar de intimidades e alguns segredos compartilhados, possuíam em comum, até então, apenas os breves encontros, em sua maioria obra de um acaso fortuito e, em sua totalidade, preenchidos por muito sexo - do tipo bom, muito bom, que faz querer parar de falar e só sentir, um sentir cheio de sensações e pouco sentimento. Um sentir da entrega, do êxtase, da volúpia e da efemeridade. Tudo tão êfemero e delicioso - delicioso por se saber êfemero? Que deixa no ar a vontade de quero mais a se concretizar ao acaso novamente, sem troca de mensagens, telefonemas ou afins. Duas existências completamente ignoradas e, ao mesmo tempo, uma vida misturada à outra daquele jeito assim, te olho e te quero, te desejo, te amo, te como, te envolvo, me leva... e quando vou, te beijo e te deixo e te vejo por aí. Te adoro e te odeio por tudo isso. Por essa incerteza charmosa e essa displicência insuportável!

E agora ali estavam eles, a dizer que se gostam. E o que fazer com essa informação? Mudar a dinâmica, passar a ligar, trocar recados no mural do facebook, se descabelar de ciúme, passar noites em claro esperando o telefonema que não acontece?! Placidamente, ela ouve e responde. Eles riem. E entendem que nada deve mudar porque é bom assim e porque ela vai lembrar dele pra sempre como aquele carinha delícia que a enlouquecia, odioso e encantador e ele irá lembrar dela para sempre como a menina-mulher-gostosa-demais que o intrigava e surpreendia. E nesse infinito de ausências cheias da volúpia e alegria dos encontros pontuais eles serão felizes. Para sempre.

das possibilidades

"Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão."
(Drummond)

E ela o conheceu e achou que ele era exatamente do jeito que esperava. Ou melhor, só o conheceu porque achou que ele era exatamente do jeito que esperava. E foi no segundo encontro que percebeu que seu cabelo não era como gostaria que fosse, que ele fumava muito mais do que ela imaginava, que ele era mais alto do que ela havia pensado. E foi no terceiro encontro que ela notou que seu corpo não era bronzeado como ela desejaria, que ele era muito mais magro do que ela esperava. Mas ele a fazia a rir e quando se encontravam após o previsível estranhamento inicial ela se sentia como no primeiro encontro quando achara que ele era exatamente do jeito que ela gostaria que ele fosse. A vida dele misturada à dela, assim entre risadas e bebidas, a inundava de uma alegria que só poderia vir do vislumbre de uma possibilidade de amor. As horas transcorriam como segundos, ali exclusivamente no espaço de tempo do presente e é incrível como ao viver o presente ele se torna passado tão e tão rapidamente e a finitude se torna palpável, quase sólida. Não, ela não queria deixá-lo quando o encontrava, mas deixava e nos dias seguintes questionava sua entrega e pensava que seus amigos, seus pais, seu irmão não gostariam dele, implicariam com seu nível cultural, sua barba e suas tatuagens e sua mania de cismar em fazer da música um meio de vida. E pensava que ele precisava muito de menos baladas e de um trabalho fixo, de um carro e de morar sozinho. E se sentia como sua mãe quando pensava assim e culpada por se preocupar com coisas tão mundanas. E, então, notava que além das risadas, gostava dessa coisa do real, da vida mais difícil, urbana, de viver o centro da cidade, sem tantas portas abertas pelo pai, sem a casa na praia para fugir do dia-a-dia como se as explicações estivessem todas no céu e no mar. E percebia que ela também precisava morar sozinha, mas ele não poderia se mudar para sua casa. Era mais pra não sair fazendo amor por aí porque o amor merece um canto, um aconchego. Mas pensava que só quereria assim quando ela quisesse e se sentia egoísta e má porque além de tudo ainda implicava com seus erros de português e seu jeito doce de falar. Então, chegava à conclusão de que não daria certo e que não era amor, pois se fosse, nada disso importaria. E se conformava pensando que era natural, pois nos seus quase trinta já era hora de pensar em constituir família e ter ao seu lado alguém que preenchesse esses critérios de "bem de vida" tão aclamados por aí. E que não importava como se sentiu de "bem com a vida" no primeiro dia seguinte, aquele posterior ao primeiro encontro quando se viu inundada de uma alegria que só uma possibilidade de amor é capaz de proporcionar...

do amor, da saudade e do aniversário

Houve certa vez um cartão de dia dos namorados que dizia assim: ‘(...) a gente ia acabar mesmo se conhecendo nessa vida. (...) Coisa do destino: inevitável e da existência: imprevisível. Saber que você existe e poder compartilhar de suas idéias, sua companhia (...) é bom demais! Que seja sempre inevitável continuar te conhecendo e eternamente imprevisível saber como será - mesmo que um dia, no futuro, o momento presente fique tão somente aconchegado nas lembranças de uma saudade gostosa.’ Uma tentativa de expressar o amor de maneira Espinosista e realmente sincera naquele momento. Um amor que não implica necessariamente a idéia de posse.

Era tanto em comum, tanta intimidade, um partilhar particular verdadeiramente rico e intenso que parecia de fato ser capaz ao sentimento mútuo extrapolar a posse, preservando o restante quando da separação. Mas... o amor quer e o homem é um sem fim de desejos conflitantes.

Do amor restou a saudade preenchida pelo vazio do presente de uma relação reduzida forçosamente ao nada pela ausência e pela distância. O tempo ajuda, o tempo cura, o tempo esvazia... A ponto de até mesmo as boas lembranças deixarem-se apagar, tristemente, aos poucos.

Pensando, encontram-se algumas, guardadas com carinho em um cantinho... Restam coisas boas aparentemente tolas, representadas na falta: das conversas sobre tudo, sobre o mundo; das discussões filosóficas; da discussão sobre o bom filme - latino ou europeu - alugado; do sono aconchegante quando o filme era ruim; da cara de sono de manhã cedo; da chuva ao subir a serra no domingo à noite; da ‘espera’ divertida na areia nas tardes ensolaradas; do calor gostoso da simples presença ao lado; da ausência presente do encontro iminente...

Pensando, também encontram-se memórias não tão doces assim - alguns fatos que podiam não ter acontecido, frases que não precisavam ter sido ditas: negação e desmerecimento desnecessários - que ajudam a esquecer o vazio total e absoluto atual.

Eu não queria que fosse dessa forma. Mas, a vida se faz assim nesse momento e traz, agora, lembranças tão somente factuais. Lembro, por exemplo, que breve será dia de aniversário. Queria poder dizer de novo esse ano: 'O aniversário é seu, mas o presente é meu, simplesmente por você existir'. Mas mesmo em Espinosa, esse sentimento implica alguma troca. O vazio e talvez a saudade não me permitem amar em Espinosa. Ainda... Que exista um quando para isso acontecer... E, por conseguinte, muitos aniversários para celebrar...

Provocação

Ela chega na fila do caixa pra pagar e quem tem exatamente a mesma ideia na mesma hora?! Cartão de consumo na mão, ele encosta assim meio de lado no balcão, com uma certa displicência charmosa que lhe é caracteristica. E ela que já estava há pelo menos umas três horas sem saber como dançar, o que beber e o que falar retribui o olhar constrangido com um sorriso sem graça e se distrai com algo que a menina da frente fala, fingindo não imaginar que o jeito que ele olha e conversa com a mocinha que passa atrás indica que eles tiveram/tem/terão algum envolvimento. E finge também não torcer secretamente para dar algum problema ao passar o cartão e a fila seguir morosamente para que ela fique ali a não observar o desfecho daquela conversa e tenha uma oportunidade ainda que rápida de mais uma vez não saber o que fazer nem o que falar.

Mas a fila anda rápido e é preciso sair dali. Pelo menos a conversinha acabou, então, tudo bem, comanda paga na mão, vai se despedir. Alguns breves eternos minutos, as palavras vagam pelo ar e, em câmera lenta, ela apenas sente o leve afagar das mãos que se seguram e um beijo na barba macia - ai, como faz calor nessa noite fria! Desfalece por dentro, tudo se desmancha, se derrete na vontade de mergulhar na sua barba, se perder no seu mundo, se afogar em seu colo. É quente e denso o ar no pouco espaço que os separa. As mãos se apertam, as palavras despedem e o olhar fundo, forte e intenso intriga. Ela quer ficar, propor conversas e silêncios, fugir dali pra qualquer lugar onde dê pra liberar essa energia envolta em luxúria. Mas, falta... coragem? - como saber se ele queria? Sai rapidamente, sem olhar para trás. Dança fora do ritmo as últimas músicas à espera da carona, enquanto assiste ao filme dos encontros anteriores, no apartamento dele. Ela sabe que ele não sai por aí contando detalhes íntimos da sua vida e beijando os pés de todas as moças com quem transa. E ele sabe que ela não sai por aí provocando encontros casuais e se entregando loucamente a todos os rapazes que conhece. Não é só o sexo, eles sabem. Mas só sexo também é, ela sabe. As imagens em 3D na cabeça se cruzam com os momentos daquela noite em uma busca incessante por denominadores comuns: o olhar intenso, o afagar da barba macia, o toque das mãos e também aquele jeito um tanto quanto blasé de quem conscientemente propõe a si mesmo não se importar. E se ele perguntasse, saberia que mesmo querendo se importar ela não se importaria em viver mais alguns encontros despretensiosos sem precisar agir com pretenso desinteresse.