do encontro
Foram o jeito de andar e o sorriso que ativaram a lembrança de que a pessoa que se aproximava era conhecida. Não que fosse preciso muito esforço para uma relação ainda tão viva apesar de já fazer parte do passado há mais de dois anos. Acontece que de fato, a diferença física entre o ser presente e aquele outro antes conhecido era surpreendente. Mas ainda estava ali a malemolência do andar cadenciado, sem pressa, quase como que um requebrado discreto e cheio de charme. E o sorriso era o dos últimos tempos juntos ou das últimas vezes em que se encontraram? – Ela não sabia mais dizer, os sentimentos lhe confundiram a memória cronológica. Um sorriso mais com o canto da boca com um jeito de querer aconchegar, mas que é bloqueado por uma força estranhamente maior e fica ali naquele meio-sorriso que traduz a ambivalência do querer – não-querer encontrar e partilhar. Um misto de alegria e angústia que provavelmente era o que ambos de fato sentiam com a surpresa desse encontro casual. Ela, impassível, não demonstrou com meios-sorrisos sua ambigüidade e o cumprimentou como a um colega qualquer. Ele perguntava e ela respondia mecanicamente com espontaneidade fingida enquanto se concentrava em observar o cabelo mais comprido que lhe lembrava Bon Jovi, o rosto imberbe e a ausência dos tão charmosos óculos. E lembrava que a barba sempre fora um de seus traços mais fortes que ele fazia questão absoluta de nunca tirar mesmo com os ocasionais comentários de que a barba escondia seu rosto tão bonito. E olhando-o assim, com o rosto liso, parecia-lhe que algo em sua identidade se perdera. A combinação da barba com os óculos era reflexo de sua personalidade, reforçava quem ele era e queria ser e, por isso, ela gostava tanto daquele visual. Causava-lhe muita estranheza a transformação por que ele passara e as perguntas vinham e apesar da voz igual era como se outra pessoa que ela nunca tinha visto conversasse com ela. A voz ao longe se misturara à música e agora ela observava o tórax forte de quem freqüenta academia todos os dias e tinha vontade de rir imaginando uma fantasia de super-homem daquelas com enchimento por baixo da camiseta branca que ele usava. Ria-se por dentro e tinha vontade de cutucá-lo para ver se era de fato real todo aquele volume. Foram alguns poucos minutos de trivialidades e perguntas previsíveis que, interrompidos por força da ansiedade, deixaram-na a imaginar que ele a olhava e apesar de falar pensava em como ela estava bonita e que cabelo lindo era aquele! E deixaram-na a desejar uma segunda oportunidade para conversar mais banalidades e decifrar (por que não?) as sutilezas daquele sorriso.
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