- Sabia que eu gosto de você?
Ela ouviu e demorou alguns segundos pra processar tal informação, dita assim, de surpresa, tão habituada estava a não ter expectativa nenhuma com este relacionamento. Os dois abraçados, de conchinha pós-sexo já era algo muito novo e ele ainda vem e solta essa! A primeira reação foi um sorriso calado e o silêncio que deve ter durado uns bons quase constrangedores segundos que o fizeram completar com o mesmo tom de voz doce e suave: "Assim de um jeito diferente..." Ela sabia que ele gostava, lógico que sabia! Mas não sabia que a pessoa era capaz de dizer isso em voz alta e para ela! Ou talvez, na verdade, estivesse era dizendo pra si mesmo, uma constatação completamente nova, quase uma epifania! Que sensação mais estranha de como-foi-que-eu-vim-parar-aqui-mesmo-e-agora-no-fundo-ouvir-você-dizer-isso-me-faz-querer-pular-e-pular-e-te-abraçar-loucamente! Ainda abraçada de costas, e ainda deitada e ainda sorrindo, virou-se para ele e disse, timidamente: "Sei. E eu também gosto de você","te adoro e te odeio ao mesmo tempo". E riu. Era um momento único entre eles, essa troca sincera e espontânea, sem joguinhos. Já se conheciam há algum tempo e, apesar de intimidades e alguns segredos compartilhados, possuíam em comum, até então, apenas os breves encontros, em sua maioria obra de um acaso fortuito e, em sua totalidade, preenchidos por muito sexo - do tipo bom, muito bom, que faz querer parar de falar e só sentir, um sentir cheio de sensações e pouco sentimento. Um sentir da entrega, do êxtase, da volúpia e da efemeridade. Tudo tão êfemero e delicioso - delicioso por se saber êfemero? Que deixa no ar a vontade de quero mais a se concretizar ao acaso novamente, sem troca de mensagens, telefonemas ou afins. Duas existências completamente ignoradas e, ao mesmo tempo, uma vida misturada à outra daquele jeito assim, te olho e te quero, te desejo, te amo, te como, te envolvo, me leva... e quando vou, te beijo e te deixo e te vejo por aí. Te adoro e te odeio por tudo isso. Por essa incerteza charmosa e essa displicência insuportável!
E agora ali estavam eles, a dizer que se gostam. E o que fazer com essa informação? Mudar a dinâmica, passar a ligar, trocar recados no mural do facebook, se descabelar de ciúme, passar noites em claro esperando o telefonema que não acontece?! Placidamente, ela ouve e responde. Eles riem. E entendem que nada deve mudar porque é bom assim e porque ela vai lembrar dele pra sempre como aquele carinha delícia que a enlouquecia, odioso e encantador e ele irá lembrar dela para sempre como a menina-mulher-gostosa-demais que o intrigava e surpreendia. E nesse infinito de ausências cheias da volúpia e alegria dos encontros pontuais eles serão felizes. Para sempre.
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