Sobre a moral, o estar só e a solidão - uma breve reflexão
“A moralidade diz respeito ao indivíduo na sua singularidade. O critério de certo e errado, a resposta à pergunta: ‘O que devo fazer?’, não depende, em última análise, nem dos hábitos e costumes que partilho com aqueles ao meu redor nem de uma ordem de origem divina ou humana, mas do que decido com respeito a mim mesma. Em outras palavras, não posso fazer certas coisas porque, depois de fazê-las, já não serei capaz de viver comigo mesma. Esse viver-comigo-mesma é mais do que a consciência de mim mesma (counciousness), mais do que a ciência de mim mesma (self-awareness) que me acompanha em qualquer coisa que faço e em qualquer estado em que me encontre. Estar comigo mesma e julgar por mim mesma é articulado e tornado real nos processos de pensamento, e todo processo de pensamento é uma atividade em que falo comigo mesma a respeito de tudo o que me diz respeito. Passarei a chamar o modo de existência presente nesse diálogo silencioso de mim comigo mesma de ‘estar só’ (solitude). Assim, o estar só é mais do que os outros modos de estar sozinho, é diferente desses outros modos, particularmente e principalmente da solidão (loneliness) e do isolamento”. ARENDT, Hannah. Responsabilidade e julgamento. P. 162-163
Cada indivíduo traz verdades únicas e exclusivas sobre a existência humana em função de sua historicidade, biografia e do contexto comunitário em que está inserido. Além disso, a influência do divino na formação do homem é inerente à sua existência, esteja sua concepção associada ou não a uma religião. Da mesma forma, as influências proporcionadas pelas trocas decorrentes da relação entre os indivíduos e os hábitos e costumes partilhados contribuem para compor a essência sobre a qual a moral própria do indivíduo é estabelecida. Assim sendo, não se pode negar que o ambiente externo e a maneira como o indivíduo se posiciona no mundo ao seu redor interferem em seu julgamento acerca das atitudes que toma. Entretanto, tais influências não são determinantes ou decisivas, elas apenas compõem um conjunto de idéias sobre as quais o homem em um diálogo consigo mesmo estabelece sua moral e seu julgamento.
O distanciamento se faz necessário para que esse processo possa ocorrer. Distanciamento e vontade. Primeiro é preciso querer envolver-se no processo de ‘estar só’ para, então, obter a consciência de que as atitudes tomadas frente às mais diversas questões apresentadas têm por base a moral única do indivíduo e não fatores externos, como muitos podem querer ao justificar ou criticar suas ações. O ‘estar só’ e o diálogo consigo permitem ao homem avaliar-se e perceber sobre quais preceitos próprios está pautada sua moral e porquê determinados acontecimentos são, por ele, considerados certos ou errados. Entretanto, se o indivíduo não quiser perceber esse processo, ele conduz sua vida acreditando basear-se em ordens divinas ou humanas e em hábitos e costumes. Ao querer distanciar-se e ao fazê-lo, é possível ao homem encontrar suas verdadeiras motivações e perceber que a cobrança com relação ao certo e ao errado vem de si, o que pode tornar mais claros os caminhos necessários para “escapar” do sofrimento proporcionado por sentir-se fazendo coisas erradas. Ou seja, ao encontrar coerência na sua própria moral, o homem pode permitir-se agir de forma a perdoar-se amenizando o sofrimento que lhe é apresentado. Por exemplo, para aqueles cuja concepção de moral interna está fortemente pautada em aspectos de ordem religiosa, o apego aos preceitos da sua religião e a adoção de suas estratégias de cura significará alívio e tornará sua vida preenchida de sentido. E, ao mesmo tempo, o diálogo consigo mesmo pode proporcionar a revelação de uma alternativa de cura para o sofrimento humano não pautada em argumentos religiosos, e, sim, no auto-conhecimento e na maneira que o indivíduo pode encontrar de lidar com sua própria moral.
O ‘estar só’ permite encontrar em si mesmo os valores que realmente pautam a realidade de cada um, estabelecendo e reconhecendo sua moral única e exclusiva. “O essencial está em mim, mas não é eu. Em mim (em meu corpo): esse vazio. É preciso começar por esse vazio.1” Para ‘estar só’ não é preciso vivenciar a solidão, ou isolar-se. É preciso deixar-se preencher por esse vazio para, então, encontrar-se por meio do diálogo consigo mesmo. O vazio representa o silêncio da alma, a verdade do silêncio como a primeira verdade, pois, antes de tudo vem o nada. O ‘estar só’ proporciona a aquisição do espaço necessário ao indivíduo para que o diálogo consigo aconteça se ele assim o desejar: é preciso preencher o vazio estabelecendo processos de pensamento. Assim, será possível julgar por si mesmo para ‘viver-consigo-mesmo’.
‘Estar só’ não é tarefa fácil. Permitir-se conhecer o extremo do seu silêncio pode ser demasiadamente revelador e é mais confortável evitar que isso aconteça. Por isso, muitas vezes, confunde-se ‘estar só’ com solidão e/ou isolamento onde facilmente recorre-se às armadilhas das mentiras. O ‘estar só’ proporciona um encontro com as verdades primordiais do indivíduo, com sua ontologia. É a verdade do silêncio acima citada. “A verdade consiste no ser: ela é o próprio ser, universal e absoluto (...)”2.
Ou seja, a moral de cada indivíduo é composta por elementos inerentes ao ser e também por fatores externos, sejam eles religiosos ou humanos, mas nem sempre os preceitos sobre o qual ela realmente está baseada estão claros e definidos para o homem. A consciência do que forma sua moral e a percepção do julgamento realizado por si só acontecem a partir do momento em que se torna possível estabelecer processos de pensamento proporcionados pelo ‘estar só’. Uma vez que o homem assim deseja, ele pode encontrar seu vazio interior e, por meio do diálogo consigo mesmo, buscar sua verdade, única e exclusiva, base sobre a qual sua vida será conduzida e seus atos serão julgados: sua moral.
1 COMTE-SPONVILLE, André. Tratado do desespero e da beatitude. São Paulo: Martins Fontes, 1997. P.14
2 COMTE-SPONVILLE, André. Tratado do desespero e da beatitude. São Paulo: Martins Fontes, 1997. P.24
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