das possibilidades

"Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão."
(Drummond)

E ela o conheceu e achou que ele era exatamente do jeito que esperava. Ou melhor, só o conheceu porque achou que ele era exatamente do jeito que esperava. E foi no segundo encontro que percebeu que seu cabelo não era como gostaria que fosse, que ele fumava muito mais do que ela imaginava, que ele era mais alto do que ela havia pensado. E foi no terceiro encontro que ela notou que seu corpo não era bronzeado como ela desejaria, que ele era muito mais magro do que ela esperava. Mas ele a fazia a rir e quando se encontravam após o previsível estranhamento inicial ela se sentia como no primeiro encontro quando achara que ele era exatamente do jeito que ela gostaria que ele fosse. A vida dele misturada à dela, assim entre risadas e bebidas, a inundava de uma alegria que só poderia vir do vislumbre de uma possibilidade de amor. As horas transcorriam como segundos, ali exclusivamente no espaço de tempo do presente e é incrível como ao viver o presente ele se torna passado tão e tão rapidamente e a finitude se torna palpável, quase sólida. Não, ela não queria deixá-lo quando o encontrava, mas deixava e nos dias seguintes questionava sua entrega e pensava que seus amigos, seus pais, seu irmão não gostariam dele, implicariam com seu nível cultural, sua barba e suas tatuagens e sua mania de cismar em fazer da música um meio de vida. E pensava que ele precisava muito de menos baladas e de um trabalho fixo, de um carro e de morar sozinho. E se sentia como sua mãe quando pensava assim e culpada por se preocupar com coisas tão mundanas. E, então, notava que além das risadas, gostava dessa coisa do real, da vida mais difícil, urbana, de viver o centro da cidade, sem tantas portas abertas pelo pai, sem a casa na praia para fugir do dia-a-dia como se as explicações estivessem todas no céu e no mar. E percebia que ela também precisava morar sozinha, mas ele não poderia se mudar para sua casa. Era mais pra não sair fazendo amor por aí porque o amor merece um canto, um aconchego. Mas pensava que só quereria assim quando ela quisesse e se sentia egoísta e má porque além de tudo ainda implicava com seus erros de português e seu jeito doce de falar. Então, chegava à conclusão de que não daria certo e que não era amor, pois se fosse, nada disso importaria. E se conformava pensando que era natural, pois nos seus quase trinta já era hora de pensar em constituir família e ter ao seu lado alguém que preenchesse esses critérios de "bem de vida" tão aclamados por aí. E que não importava como se sentiu de "bem com a vida" no primeiro dia seguinte, aquele posterior ao primeiro encontro quando se viu inundada de uma alegria que só uma possibilidade de amor é capaz de proporcionar...

Nenhum comentário: